Elaborar listas é sempre complicado. Na verdade, nem é muito prático escrevê-las ou consultá-las. O fato é que li uma pesquisa na internet sobre os melhores filmes de horror e não concordei de jeito nenhum com os eleitos. Tinha até Os Caçadores da Arca Perdida, um filme de aventura do Steven Spielberg. Decidi então criar essa lista para valor de consulta aos amigos e alunos, sei que muitos não vão concordar, mas também faz parte da polêmica. Aprecio muito o gênero e conheço bastante, desde O Laboratório do Doutor Calligari quando o cinema ainda era mudo até os snuff movies proibidos por aí. E não, não sou sádico, sou cinéfilo, adoro a 7ª arte. Claro que ficaram de fora da lista um monte de filmes recentes que são aclamados como bons, mas não são nada e mais. Acreditem, para cada Pânico existe o excelente Psicose; para cada Pânico na Floresta existe já outro filme que o consagrou. Um filme de terror deve ter atmosfera, um roteiro muito bem trabalhado e personagens que criam laços com o espectador. Por que sentiremos pena de alguma vítima de Sexta-Feira 13 se o personagem por quem nós temos mais afinidade é o próprio Jason? Os personagens criados nesses filmes não passam de fantoches criados para morrer ao bel-prazer do assassino. Filme de terror é sempre complicado mesmo. Sem demora, vamos aos filmes:
Menções Honrosas
(todos filmes origiais, nada de remakes)
Nosferatu
O Homem de Palha
Alien – O Oitavo Passageiro
Noite dos Mortos Vivos
Extermínio
O Exorcista
Carrie - A EstranhaPoltergeist – O Fenômeno
Você acorda durante a madrugada porque acha que deixou a televisão ligada. Desce as escadas e na sala encontra a sua filha bem próxima da TV com imagem fora do ar, em estática. A menina supostamente conversa com uma pessoa na televisão. Nos dias seguintes alguns fenômenos estranhos ocorrem na casa, como objetos que se movem do nada. E para seu desespero e da família, a garotinha Karol Anne desaparece e o que ouvimos é a voz dela dentro da televisão.
É com essa premissa que começamos a nos envolver com Poltergeist, um filme dirigido por Tob Hopper, mas com muito mais cara do seu produtor, Steven Spilberg. O longa teve outras continuações, todas inferiores. Nesse filme temos uma família atormentada por espíritos que rondam a casa provocando o inclusive o poltergeist, palavra alemã que designa um fenômeno paranormal em que os objetos se movem sozinhos. Um filme que tem caráter descompromissado, deveras até leve, mas que cria muitos sustos, um clássico.
O Massacre da Serra-Elétrica

Olhando hoje os filmes de alto conteúdo gore¸ cheio de cenas de sangue, vísceras e violência, fica até difícil assistir a um filme antigo que foi marco nesse tipo de conteúdo. O fato é que na década de 70 O Massacre da Serra Elétrica estreou uma modalidade de filme de terror, o cinema gore, ou seja, filmes de baixo orçamento e bastante apelo para cenas de crueldade. Era novidade na época, e o fato de o filme ser “aparentemente” baseado num massacre real no Texas só aumentou ainda a tensão de assisti-lo, talvez até uma tentativa de snuff movie. Todos os assassinos em série que abusam da violência e do horror devem um tributo a Leather Face, o maníaco desse filme dirigido por Tob Hopper. As continuações são péssimas, o recente ramake é sofrível. Já notaram o quanto esses filmes de terror recebem remakes nos últimos anos? Sinal de que os roteiristas sofrem para criar uma história de terror interessante ultimamente. Um detalhe interessante é que em inglês o título é Texas Chainsaw Massacre, ou seja, o Massacre da Motosserra no Texas; afinal a arma do filme é uma motosserra, mas como o título iria ficar engraçado, para não dizer rural ou roceiro, usaram serra - elétrica mesmo.
Os Pássaros

Essa obra prima de Hitchcock pode ser considerada mais suspense que horror. Mas não deixa de ser apavorante a idéia de que repentinamente os pássaros de uma cidadezinha dos EUA começam a ficar enfurecidos e atacam a qualquer um. Cenas antológicas como a da professora que tenta levar a salvo seus alunos passando por um playground cheio de pássaros compõem esse filme. Um detalhe interessante é que o filme inteiro não tem trilha sonora. Isso mesmo, não há uma única música no filme. Isso porque o diretor optou por criar uma atmosfera mais realista e experimentou usar apenas o som ambiente e alguns efeitos sonoros.
O Bebê de Rosemary

Esse filme de Roman Polansky é excelente e causou até mesmo descontentamento em alguns setores da Igreja Católica. Falar do que se trata o filme é estragar as surpresas que ele revela. O grande diferencial de O Bebê de Rosemary está no fato de se crer ou não nos mistérios, nos fatos, nas ligações pelo qual a personagem título passa. As mulheres então, são aquelas que mais ficarão aflitas com esse clássico. A atuação de Mia Farrow é digna de uma indicação ao Oscar. Todo o peso do longa metragem está na personagem dela que deve transmitir toda a felicidade, dúvida, angústia, paranóia, frustração e às vezes submissão. Em muitas ocasiões Rosemary parece estar sem saída, traída por todos, vítima de um complô macabro, mas como falado anteriormente, o charme da produção está na dúvida dos acontecimentos. Será tudo real, será paranóia de uma mulher superprotetora para com o filho(a) que vai nascer? Assistam e confirmem.
O Iluminado
Apesar do escritor do romance original, o renomado Stephen King, não ter gostado da adaptação para o cinema, essa obra do diretor Stanley Kubrick é genial. Estranhos acontecimentos ocorrem num hotel de luxo que está fechado por causa da baixa temporada, ficando lá dentro apenas o gerente/zelador e sua família. Já se tornou lendária a cena em que o menino está andando de velocípede pelos corredores do hotel quando dá de cara para duas gêmeas aparentemente mortas de pé. Cenas como essa me gelam a espinha só de lembrar. Também é conhecido por todos o fato de que o diretor ficou extremamente irritado com a performance da atriz Shelley Duvall, que inclusive é péssima, e exigiu que a mesma repetisse uma cena mais de 120 vezes. Isso mesmo, Kubrick era um diretor perfeccionista e a atriz era horrível, mas já estava há tempos no projeto; resultado, uma das cenas teve que ser repetida exatamente 127 vezes. Apesar da atuação pífia da atriz, o filme é muito bom. Não deixa de ser um filme de terror, apesar de seu conteúdo altamente psicológico. Um filme de terror com requinte e loucura.
Psicose
Outro filme que infelizmente recebeu um remake horrível. Esse é o melhor trabalho de Alfred Hichcock, talvez equiparável ao seu brilhante Um Corpo Que Cai. Norman Bates é um clássico personagem freudiano que torna o longa metragem um thriller de enorme carga emocional. A cena clássica do chuveiro e a trilha atemporal Bernard Herrmann são provas do talento do diretor e do legado de sua genialidade nesse brilhante longa. Até hoje Psicose é tido como referência para estudos em cursos de cinema por sua narrativa arrojada, suas sutilezas com respeito à construção das personagens e os ângulos de câmera inusitados na época. A fotografia em preto e branco é um primor e contribui de maneira significativa para com o clima do filme.
A Profecia

Esqueça o recente remake desse filme ou suas continuações. O filme original da década de 70 é excelente e conta com uma trilha sonora vencedora do Oscar. De fato os roteiristas de A Profecia criaram a história se baseando numa livre interpretação bíblica no livro de Apocalipse, mais precisamente sobre o anticristo. Temos nesse filme a figura do anticristo encarnada num menino. Detalhes bastante sutis tornam esse longa metragem primoroso, são minúcias em cada tomada que tornam a atmosfera de A Profecia cada vez mais angustiante. Como já afirmei, a trilha é ótima, e pasmem, todas as músicas são missas negras em latim. A música tema, por exemplo chama-se Ave Satani, ou seja, o oposto da Ave Maria. Dá até para arrepiar, não é? Espere só quando se ouvir mesmo a trilha. Até hoje não dá para acreditar como a academia superconservadora de Hollywood deu o Oscar merecido a Jerry Goldsmith. Querem saber algo terrível relacionado? O diretor de efeitos especiais criou uma cena em que um personagem morre decapitado por um vidro; dias depois sua namorada morreu num acidente de carro e foi decapitada da mesma forma. Detalhes revelados no excelente making of que acompanha o DVD desse ótimo filme.
O Chamado – (Ringu)
Esse talvez seja o último exemplar bem construído de filme de terror. E como Hollywood está em baixa com roteiros cada vez mais estúpidos e reciclados no gênero, foram criar uma refilmagem de um longa japonês. Após assistir a uma fita cassete que mostra imagens aparentemente sem lógica, o telefone toca, e o espectador recebe a terrível notícia de que vai morrer em 7 dias. Confesso que gosto mais do Ringu, o filme original, mas a refilmagem americana também é muito boa. O Chamado reúne uma história muito bem construída, cenas que mostram uma busca tensa pela verdade e um mergulho dentro do sobrenatural. Além de que os japoneses foram muito ardilosos em criar um elemento perturbador quando o filme foi lançado, na época dos videocassetes. A cópia que assistíamos era uma das cópias de dentro do filme. A fita alugada era parecidíssima com a que víamos, com o mesmo tratamento amador, até a capa era mal cuidada. Tudo para dar a impressão de que O Chamado acontecera e que poderíamos ser também vítimas. É um filme que não apela para cenas de conteúdo explícito, que não nos julga idiotas e que se prima por criar tensão a cada momento. Coisa que infelizmente os filmes contemporâneos não fazem.
Hellraiser (Renascido do Inferno) e Hellraiser II (Hellbound)
Essa série de filmes hoje em dia está acabada que só com suas inúmeras continuações, mas os dois primeiros filmes são excelentes. Fruto da mente perturbadora de Clive Baker, temos a história de uma caixa enigmática que desperta curiosidade entre aqueles que a tem nas mãos. Os que a possuem foram avisados de que a caixa leva a prazeres nunca antes sentidos, mas que o preço será alto a pagar. Quando o enigma da caixa é descoberto, um portal do inferno se abre; e de lá aparecem os cenobitas, demônios sadomazoquistas que se contentam apenas com o prazer de ver as vítimas torturadas para sempre, com ganchos furando os corpos e os membros sendo mutilados. A figura central com certeza é o cenobita PinHead, que virou ícone dos filmes de terror. Porém, os outros cenobitas são tão assustadores quanto. A continuação, Hellbound é considerada por alguns levemente inferior ao original. Discordo, a sequência é ainda melhor e mais perturbadora. Clive Baker conseguiu com maestria empregar horror com suas figuras perturbadoras e situações grotescas repletas de sadismo. O longa metragem não é rico em efeitos especiais, porém a maquiagem é bastante convincente e a história é seguramente interessante. E nas perturbadoras palavras dele temos a certeza de um filme clássico de terror: “nós temos a eternidade toda para provar a sua carne”.
Canibal Holocaust
Assisti a Canibal Holocaust numa cópia barata de DVD importada por um amigo meu. O filme é proibido em muitos países, inclusive o Brasil, que não tem distribuidora. Felizmente essa cópia tinha até legenda em português. É um snuff movie (gênero de horror que tenta se fazer de cenas praticamente reais ou que induzem a acreditar que tudo aquilo aconteceu) de muito mal gosto e baixo orçamento, mas que se mostra extremamente perturbador e bom como longa-metragem. Temos a história de um pesquisador que tenta descobrir o que aconteceu com um grupo de jovens jornalistas que desapareceu na floresta amazônica. Lá chegando ele se depara com a macabra realidade. Os jovens faziam uma matéria com respeito a uma tribo indígena antropofágica, mas o doutor só encontra com os índios os restos mortais e alguns objetos das vítimas. O filme é rico em mutilações, sangue, tortura e todo o tipo de violência possível, O diretor do longa teve sérios problemas, pois as cenas de morte de animais são verdadeiras, e as cenas de morte com os atores parecem tão reais que se cogitou que os mesmos teriam morrido nas filmagens, o que claro não é verdade. Já assisti a muita coisa nessa vida e posso assegurar que Canibal Holocaust é seguramente uma das obras mais perturbadoras do cinema. Poucos filmes são escatologicamente violentos e magistralmente horripilantes. E olha que não há uma cena sequer no escuro ou mesmo uma trilha sonora assustadora; é tudo o mais natural o possível. Preparem-se é preciso ter estômago e coragem mesmo. Assistam, se conseguirem uma cópia, você nunca mais vai olhar para uma floresta com os mesmos olhos. A realidade urbana parece muito menos assustadora depois desse filme.
O Exorcista

Um dos melhores, senão o melhor filme de horror até hoje. Não apenas por suas cenas incrivelmente tensas e apavorantes, mas pelo preciosismo técnico e o show de direção de William Friedkin. Histórias de possessão sempre me assustam, nada daquele teatro em muitas igrejas protestantes, falo de casos que são até secretos pela Igreja, ou coisa parecida. O que o escritor Peter Blat fez aqui foi reunir uma pesquisa sobre um caso “verídico”de possessão nos EUA e transformá-lo num livro que deu origem ao filme. O próprio escritor foi também roteirista. O filme se constrói sutilmente no início, com escavações arqueológicas e a tentativa da ciência em explicar porque a menina Reagan, de 12 anos, apresenta um comportamento tão anormal. O que se segue depois são cenas perturbadoras que envolvem a deformação da menina coberta de pus, cicatrizes e pústulas até o confronto do diabo com os padres. Contar as cenas aqui é tarefa inútil, é preciso se envolver com o choque que elas provocam. Como qualquer outro filme, é preciso que se esteja preparado para o que vai assistir. Constantemente vejo adolescentes dizendo que O Exorcista é mais comédia que horror. A avaliação que faço é que essas pessoas têm realmente medo de assistir a esse filme, e quando o fazem assistem em grupo, com muita gente fazendo piada e ninguém prestando atenção. Tente assistir a O Exorcista em um ambiente escuro, com som 5.1, TV grande e muito bem concentrado, sem clima de festa. Outro detalhe, o som do longa é excelente, indicado ao Oscar, inclusive. O que me leva a recomendar que nunca assistam ao filme dublado. Muito do som original é perdido. Os gemidos, sussurros e gritos de Reagan foram feitos por uma pessoa real, a voz dela é extremamente perturbadora. E infelizmente no filme dublado foi usada uma voz masculina computadorizada, uma lástima. Artisticamente irrepreensível, O Exorcista é até hoje o único filme exclusivamente de terror indicado ao Oscar de melhor filme em 1974. O longa apavora em cada detalhe, e o fato de que podemos ser vítimas de demônios que se satisfazem com o sofrimento humano e que nos põem em confronto com nossos medos e erros é o que mais apavora. Ouso dizer que não houve nenhum filme de terror que impressionou mais que esse em seu lançamento. Quando lançado em 1973, as pessoas não eram tão acostumadas com o freak show da vida real de hoje, com cenas de pessoas mutiladas ou mortes horrendas sendo televisionadas. Mais que natural então que durante a estréia do filme houvesse pessoas desmaiando, vomitando e saindo antes do término. O clima nas filmagens de O Exorcista era tão perturbador que cogitaram pedir ao padre de verdade que acompanhava as cenas para que benzesse o local. Tudo isso vocês podem conferir num DVD duplo que apresenta o filme e o making of. O longa rendeu duas continuações e uma prequel, todas ruins. Queria colocar aqui a foto da Reagan deformada pelo demônio, mas eu cago de medo da imagem dela, e como to postando de madrugada o medo aumenta ainda mais. Até abri aqui no navegador, mas fechei na hora. Sério mesmo, acho muito perturbadora a imagem. Fico então com a belíssima cena em que o padre Merry chega na residência da garota. A cena é tão bem fotografada que virou o pôster do filme. Assistam, mas estejam preparados.